Martinho Lutero, o reformador da Igreja – (Parte 3)

Terceira parte do Estudo sobre Martinho Lutero, o reformador da Igreja:

A JUSTIFICAÇÃO SOMENTE PELA FÉ

A doutrina da justificação somente pela fé caiu como uma bomba na paisagem teológica do catolicismo medieval. Ela arrasou toda a teologia dos méritos e, na verdade, a base penitencial-sacramental, da própria igreja. Não é de surpreender que Jacob Hochstraten, inquisidor dominicano de Colônia, considerasse blasfêmia Lutero descrever a união da alma com Cristo como um matrimônio espiritual baseado na fé somente. Como pode Cristo ser unido a um pecador? Isso significa tornar a alma “uma prostituta e adúltera” e o próprio Cristo “um alcoviteiro e protetor covarde da desgraça dela.” Hochstraten estava chocado com o significado da mensagem de Lutero.

Então, será que Lutero não tinha lugar algum para as boas obras? O Duque Jorge da Saxônia acreditava que não, quando observou: “A doutrina de Lutero é boa para os que estão morrendo, mas não é nada boa para os que estão vivos”. Erasmo foi menos indulgente: “Os luteranos buscam apenas duas coisas – riqueza e esposas. Para eles o evangelho significa o direito de viverem como desejarem”. Ao ressaltar tão fortemente a iniciativa de Deus na salvação, será que Lutero abriu a porta ao antinomismo, a visão de que os cristãos são isentados pela graça sem a necessidade de observar qualquer lei moral.

Lutero estava consciente da acusação e negou vigorosamente que fosse culpado disso. Enquanto de maneira alguma somos justificados pelas obras, elas devem seguir-se a fé como seu fruto característico.

O fruto da justificação é a fé ativa no amor. Tal amor é dirigido em primeiro lugar não a Deus, na esperança de conseguir algum mérito para a salvação, mas ao próximo, porque “o cristão vive não em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo”. Lutero incitava os cristãos a realizarem boas obras a partir de um amor espontâneo, em obediência a Deus por causa dos outros. Em outras palavras, a justificação somente pela fé liberta-me para amar meu próximo desinteressadamente, por causa dele mesmo, como meu irmão ou irmã, não como meio calculado para alcançar a salvação. Visto que não mais carregamos o insuportável peso da autojustificação, estamos livres “para ser de Cristo uns para os outros”, para nos consumirmos em favor dos outros, mesmo como Cristo também nos amou e deu a si mesmo por nós.

 

A PREDESTINAÇÃO NO ENTENDIMENTO DE LUTERO

A tensão entre a livre eleição de Deus e a resposta humana genuína está presente já no Novo Testamento. Entretanto, Agostinho, em sua luta clássica com Pelágio, foi quem primeiramente desenvolveu uma doutrina da predestinação.

Para Pelágio, a salvação era uma recompensa, o resultado das boas obras livremente realizadas pelos humanos. A graça estava dentro da própria natureza humana. Em outras palavras, a graça era simplesmente a capacidade natural que todos os seres humanos possuem de fazer a coisa certa, de obedecer os mandamentos e assim obter a salvação. Agostinho, por outro lado, via um grande abismo entre a natureza, em seu estado caído e a graça. Agostinho entendia a salvação como a livre e surpreendente dádiva de Deus ao homem. Se, entretanto a fonte de nossa conversão a Cristo reside não em nós mesmos, mas somente na vontade de Deus, porque alguns reagem positivamente ao evangelho, enquanto outros o desprezam? Essa pergunta levou Agostinho à discussão paulina da eleição, exposta em Romanos 9 a 11. Aqui ele encontra a base para sua própria doutrina da predestinação: da massa da humanidade decaída, Deus escolhe alguns para a vida eterna e omite outros que estão, assim, destinados à destruição, e tal decisão é feita independente de obras ou méritos humanos.

Durante os mil anos transcorridos entre Agostinho e Lutero, a principal corrente da teologia medieval dedicou-se a dissolver o severo predestinacionismo de Agostinho. A maioria dos teólogos tentou modificar a doutrina de Agostinho, enfraquecendo a base da predestinação. Alexandre de Hales recorreu ao principio da equidade divina: “Deus relaciona-se de igual para igual com todos” Outros afirmavam que a predestinação era subordinada ao conhecimento prévio, ou seja, Deus elege aqueles que sabe com antecedência que receberão méritos de seu próprio livre-arbítrio. Nenhuma dessas teorias da salvação era “puramente” pelagiana, porque todas requeriam a assistência da graça divina. Ainda assim o fator crucial continuava sendo a decisão humana de responder positivamente a Deus, em lugar da livre e desacorrentada decisão de Deus de escolher quem desejasse.

A doutrina da justificação sustentada por Lutero rompeu decisivamente com o modelo agostiniano de distribuição progressiva da graça. Somos justificados não porque Deus nos está tornando gradualmente justos, mas porque fomos declarados justos com base no sacrifício expiatório de Cristo. Contudo, a partir do principio anterior da sola gratia, Lutero, Zuínglio e posteriormente Calvino permaneceram firmes com Agostinho contra os que exaltam o livre-arbítrio humano à custa da livre graça de Deus. Nesse aspecto, a linha principal da Reforma protestante pode ser vista como uma “aguda agostinianização do cristianismo”. Alguns historiadores consideram a doutrina da predestinação de Lutero uma aberração de seus temas principais, ou na melhor das hipóteses, um pensamento meramente auxiliar. Mas Lutero via o assunto de maneira diferente.

Lutero nunca negou a existência do livre-arbítrio, mas sempre colocado em assuntos que não se relacionam com a salvação. Ele disse assim a Erasmo: “Sem dúvida você está certo em conferir algum tipo de arbítrio, mas imputar-lhe um arbítrio que seja livre nas coisas de Deus é demais”.

Segundo os padrões humanos Deus seria injusto ao escolher alguns para a perdição eterna independente de méritos. Ainda assim ninguém reclama da primeira “injustiça”, porque o interesse pessoal está em jogo. Em ambos os casos, Deus é injusto pelos padrões humanos, mas justo pelos seus. Lutero recusou-se a submeter Deus ao tribunal da justiça humana como se a Majestade, que é o criador de todas as coisas, tivesse de curvar-se a uma das escórias de sua criação, o homem. “Deixem Deus ser bom”, clamava Erasmo, moralista. “Deixem Deus ser Deus”, replicava Lutero, o teólogo.

Embora Lutero nunca tenha suavizado sua doutrina da predestinação, ele de fato tentou estabelecer o mistério no contexto da eternidade. Lutero nunca admitiu que os inescrutáveis julgamentos de Deus eram realmente injustos, mas sim que somos incapazes de aprender o quanto são justos.

 

A DOUTRINA CRISTOCÊNTRICA

O que deu a doutrina de Lutero o caráter reformador único foi sua base cristocêntrica radical. Já em 1515, ele estava ensinando a cristocentricidade das Escrituras: “aquele que ler a Bíblia deve simplesmente prestar atenção para não errar, pois as Escrituras podem permitir que sejam entendidas e conduzidas, mas que ninguém as conduza de acordo com suas próprias inclinações; antes que essa pessoa as leve para a fonte, isto é, a cruz de Cristo. Então certamente acertará o alvo”.

Cristo é ao mesmo tempo o centro e o Senhor das Escrituras. Enquanto as Escrituras como um todo tratam de Cristo, nem tudo nas Escrituras fala de maneira igualmente clara sobre Cristo.

O desprezo de Lutero pela Epístola de Tiago é famoso e ilustra mais ainda sua fixação em Cristo como centro do verdadeiro e apropriado das Escrituras. Lutero, lendo Tiago pelos olhos de Paulo, considerou insuficiente a teologia da graça esboçada de Tiago. “Fora com Tiago”, ele dizia. “Quase tenho vontade de jogar Tiago no forno, como o sacerdote em Kalenberg fez (uma referência a um pastor local que em certa ocasião, usou as estátuas dos apóstolos como lenha)”.

 

Bibliografia: 

Dias, J. B. (14 de Outubro de 2017). Martinho Lutero, o reformador da Igreja. Fonte: Santo Vivo: www.santovivo.net

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