Martinho Lutero, o reformador da Igreja – (Parte 4)

Parte 4 do estudo sobre Martinho Lutero:

A IGREJA INVISÍVEL

Lutero sustentava que o evangelho constituía a igreja, não o contrário, como Roma fazia crer. “O verdadeiro tesouro da igreja é o santo evangelho da glória e da graça de Deus”. Como Agostinho, Wycliffe e Hus antes dele, Lutero falava sobre a igreja invisível cujos membros reuniam todo o grupo dos predestinados para a salvação. A igreja se estende tanto no tempo quanto no espaço, e não está presa a nenhuma cidade, pessoa ou época. Seu fundamento é a eleição graciosa de Deus, revelada em Jesus Cristo e atestado nas Escrituras Sagradas: “A igreja não constitui a Palavra de Deus, mas é constituída pela Palavra”. Sua invisibilidade deriva do fato de que a própria fé é invisível (Hb 11.1).

Além de invisível, Lutero também falou da igreja como “oculta”. Esse é um tema bem mais complexo, que traz diversas conotações. Significa em primeiro lugar que a igreja, embora clara para Deus, está oculta do mundo. Numa metáfora audaciosa, Lutero disse que Deus não quer que o mundo saiba quando Ele dorme com sua noiva. Aos olhos da fé, a igreja é uma “donzela digna”, mas pelos padrões do mundo é uma pobre Cinderela cercada por muitos inimigos perigosos.

O caráter oculto da igreja também se estende à sua santidade. Ao contrário dos Anabatistas, Lutero nunca defendeu a idéia de uma igreja pura, composta apenas de santos discerníveis. Nesta era, a igreja é o corpo em busca da santificação, contendo ao mesmo tempo pecadores e santos, hipócritas e cristãos devotos, joio e trigo. A pureza da igreja não está sujeita a exame nem depende das qualificações morais dos membros ou dos ministros. “Nossa santidade está nos céus, onde Cristo está; não no mundo, perante os olhos dos homens, como um produto de mercado.”

Lutero entendia que a continuidade da igreja estava estabelecida, não numa sucessão de bispos, mas numa sucessão de cristãos verdadeiros, voltando até Adão: “Sempre há um santo povo cristão na terra, em quem Cristo vive, trabalha e governa”. Além disso, a igreja é subserviente ao evangelho. A Palavra de Deus não pode existir sem o povo de Deus, nem seu povo sem sua Palavra. Mesmo na apóstata Igreja de Roma, Lutero reconhecia que o evangelho não havia sido completamente extinto. Pelo menos o batismo e as Escrituras permanecem, e isso sustentou as crianças e alguns idosos, mas apenas alguns, que no fim de suas vidas voltaram-se mais uma vez para Cristo, dizia Lutero.

 

A MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Sem dúvida alguma, Lutero foi um herói nacional alemão, tido em alta conta tanto por príncipes quanto por camponeses, humanistas e senhores feudais; seu comportamento nos anos seguintes afastou alguns daqueles que o tinham seguido tão prontamente no início do movimento de Reforma. Durante o tempo em que permaneceu em Wartburg, Nicolau Storch e Markus Stubner, conhecidos como profetas de Zwickau (Cidade ao leste da Alemanha), apareceram em Wittenberg e começaram a pregar ideias similares a algumas ideias anabatistas. Ensinavam que o Reino de Deus irromperia brevemente na terra e que seus seguidores teriam revelações especiais. Mesmo sob o risco de morte, Lutero retornou a Wittenberg em 1522. Depois de oito sermões contundentes, em que salientou a autoridade da Bíblia e a necessidade de uma mudança gradual na Igreja, Lutero derrotou os profetas de Zwickau. O setor radical da Reforma sentiu então que não poderia contar com o apoio de Lutero, que em 1535 rompeu deliberadamente com o movimento anabatista.

Ele já havia perdido também o apoio dos humanistas, como Erasmo de Rotterdam, em 1525. No início Erasmo apoiara a Reforma, mas recuou quando percebeu que as ideias de Lutero provocariam uma ruptura com Roma. Ademais discordava de Lutero quando este dizia que a vontade do homem estava tão escravizada pelo pecado que a iniciativa de salvação deveria partir de Deus. Em seu livro A Liberdade da Vontade, publicado em 1524, Erasmo ensinava a liberdade da vontade humana. Lutero negou a liberdade da vontade em seu livro A Escravidão da Vontade, publicado em 1524.

Os camponeses também se tornaram hostis a Lutero em 1525 quando este se opôs à sua revolta. Os camponeses tinham ouvido Lutero denunciar a autoridade da Igreja ao afirmar a autoridade das Escrituras e o direito do indivíduo de ir diretamente a Deus em busca da salvação, e assim aplicaram tais argumentos a seus problemas sociais e econômicos. O feudalismo trouxera muita opressão aos camponeses, os quais em seus “Doze Artigos”, de 1525, pediram uma reforma dos abusos feudais, que podiam ser confirmados como abusos na autoridade das Escrituras.

Inicialmente, em sua Admoestação à Paz, de abril de 1525, Lutero pediu aos camponeses que fossem pacientes e pediu aos senhores feudais para reduzirem os encargos sobre os camponeses. Quando Lutero percebeu que esse movimento social de caráter revolucionário poderia ameaçar a Reforma e subverter os fundamentos da ordem governamental até mesmo nas províncias protestantes, pediu aos príncipes, em seu panfleto Contra o Bando Assassino e Salteador, que pusessem fim a desordem. As autoridades fizeram uso da violência e massacraram aproximadamente cem mil camponeses. Os camponeses do sul da Alemanha consideraram esse acontecimento como uma traição de Lutero, e assim permaneceram na Igreja Católica.

O casamento de Lutero com a freira Catarina Bora em 1525, foi considerado um grande erro da parte do Reformador. Ele, no entanto, sempre entendeu que agiu corretamente, formando uma família. Seus seis filhos e os inúmeros estudantes convidados que enchiam sua casa foi sempre motivo de alegria para ele.

 

A ECLESIOLOGIA DE LUTERO

Lutero e Zuínglio se encontraram no outono de 1529, no que ficou conhecido como Colóquio de Marburg, no castelo de Marburg, de propriedade de Filipe de Hesse. Eles concordaram em 14 das 15 proposições, mas discordaram na questão da presença de Cristo nos elementos da Ceia. Para Zuínglio a Ceia era um memorial da morte de Cristo, mas para Lutero havia uma presença física de Cristo na comunhão, embora a substância do pão e do vinho não se alterasse. Ele argumentava que assim como o ferro embora fique vermelho-cereja quando aquecido, a substância do pão e do vinho não mudam, mas dentro e fora dos símbolos há uma presença física real de Cristo. Essa posição ficou conhecida como consubstanciação.

Lutero elaborou em 1529 o Catecismo Menor, uma abordagem concisa dos 10 mandamentos, do Credo dos Apóstolos, da Oração Dominical e de outros assuntos de teologia e liturgia.

No Cativeiro Babilônico da Igreja (1520), Lutero atacou o sistema sacramental do catolicismo medieval, sustentando a autenticidade de apenas dois sacramentos: o batismo e a ceia. Ele sustentava que a fé mesmo à parte dos sacramentos, era suficiente para a salvação: “Você pode crer mesmo sem ser batizado, porque o batismo não é nada mais do que um sinal externo que nos faz lembrar da promessa divina”. Lutero fez essa declaração em resposta ao sacramentalismo católico romano. Contudo ele mantinha em alta consideração o caráter objetivo dos sacramentos. O batismo e a ceia são garantias da promessa de Deus.

A maior contribuição de Lutero à eclesiologia protestante foi sua doutrina do sacerdócio de todos os cristãos. Contudo, nenhum outro elemento de seu ensino é tão mal compreendido. Para alguns, isso significa apenas que não há mais sacerdotes na igreja; é a secularização do clero. Dessa premissa, alguns grupos notadamente os Quacres, defendem a abolição do ministério como ordem distinta dentro da igreja. Mais comumente, as pessoas acreditam que o sacerdócio de todos os cristãos implica que cada cristão é seu próprio sacerdote e, assim possui “direito a um julgamento privado” em assuntos de fé. Ambos os casos constituem perversões da intenção de Lutero. A essência de sua doutrina pode ser expressa uma única frase: todo cristão é sacerdote de alguém, e somos todos sacerdotes uns dos outros.

 

Bibliografia: 

Dias, J. B. (14 de Outubro de 2017). Martinho Lutero, o reformador da Igreja. Fonte: Santo Vivo: www.santovivo.net

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